Filósofo diz que Nobel a Dylan é alerta à mesmice

Brasileiro Frederico Rochaferreira critica a produção literária mundial

O Nobel de literatura entregue a Bob Dylan pela Academia Sueca pegou o mundo de surpresa, principalmente o mundo literário, que procura entender o que aconteceu: que motivos levaram o seleto Comitê do Nobel, a premiar um cantor e compositor com a mais alta honraria literária, preterindo um escritor?

É verdade que Dylan tem lá seus livros, porém, são obras que se resumem a biografias, coletâneas de poesias, entrevistas e crônicas musicais – histórias acumuladas ao longo da carreira, comum a milhares de artistas; tanto que não foi o conjunto da obra literária que motivou a Academia a lhe conceder o Prêmio, mas sim o conjunto de sua obra musical.

Em comunicado à imprensa, a Academia disse que o cantor americano foi escolhido, "por ter criado novas expressões poéticas dentro da tradição musical americana", mas para o filósofo brasileiro Frederico Rochaferreira, essa explicação não convence. "Ora, para obras musicais existem premiações específicas como o Grammy ou o Oscar, prêmios inclusive, que o cantor já possui em seu acervo, portanto, a explicação dada por Sara Danius, é frágil em seus argumentos e não convence", afirmou.

De fato, a escolha foi tão insólita que a própria secretária permanente da Academia se justificou dizendo que poderia aquela premiação parecer pouco convencional, mas que também as obras de Homero e Safo foram escritas para serem cantadas, raciocínio que na visão do autor de A Razão Filosófica, soa vazio. Frederico entende que letras de músicas, regra geral, estão amalgamadas ao ritmo e não sobrevivem sem ele, salvo algumas poucas exceções.

"É sabido que as letras musicais raramente têm vida própria, sem a música. No caso do cantor e compositor americano, algumas de suas letras sobrevivem sem a musicalidade, todavia, comparar essas letras sobreviventes a Homero e Safo e lhe dedicar um Nobel de Literatura com esse argumento, não me parece uma justificativa inteligente", afirma. 

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A visão crítica do filósofo parece encontrar eco no próprio comportamento do cantor. Horas depois de ser anunciado como ganhador do Nobel de Literatura, Dylan fez uma apresentação em Las Vegas, nos Estados Unidos, e nada mencionou sobre o prêmio que acabara de receber e vem, nesses primeiros dias, procurando manter um nada discreto distanciamento com a com a Academia Sueca, que só consegue falar com seus assessores.  

Frederico Rochaferreira lembra que por traz dessa premiação fora do contexto, o objetivo pode não ter sido o talento do canto e compositor, mas, acima de tudo, um alerta à progressiva mediocridade da literatura. "Não é improvável que essa premiação traga consigo um recado velado, um alerta à mesmice que ronda a literatura mundial. Enxurradas de romances novelescos e contos fantasiosos de duvidosa qualidade saem todos os anos de moinhos editoriais, dirigidos a um público cada vez menos intelectualizado, onde as editoras via imprensa transformam escritores e obras obscuras em best sellers do dia para a noite, inundando o mercado literário de nulidades", diz. 

Segundo Frederico Rochaferreira, a literatura é um grande negócio e o objetivo, é atingir sempre o grande público, portanto, qualidade literária passa a ser mera formalidade ante a tendência do mercado. "Recentemente, escrevi que a literatura brasileira não promove o desenvolvimento cultural do nosso povo, pelo contrário, o inibi, na medida em que é uma literatura de contos da carochinha, de assimilação de ideias e esse pensamento, guardada as devidas proporções, pode ser estendido a outras sociedades. Se por aqui a literatura vazia que temos se deve principalmente à precariedade intelectual, nas sociedades desenvolvidas, esse é um negócio proposital, visando grandes lucros", continua.

"Agora, por mais fragilizada que a literatura possa estar em termos globais, certamente há incontáveis talentos dispersos pelos cinco continentes e a Academia Sueca não poderia nem deveria ignorá-los. Ao escolher um cantor popular e não um escritor para receber o maior prêmio literário, independente do objetivo que se pretendeu, o Comitê do Nobel fez uma escolha irresponsável e esse ano de 2016, ficará marcado como o ano em que a literatura ficou sem um prêmio Nobel", finaliza.

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