Jorge Furtado lança novo documentário

Reflexão tem como tema o jornalismo, começando nos tempos de Shakeaspeare e chegando ao Brasil atual

O cineasta Jorge Furtado uniu dois temas de seu interesse – o teatro elizabetano e o jornalismo diário – para construir “O Mercado de Notícias”, seu novo longa-metragem. O documentário, que estreia amanhã nos cinemas, convida o espectador a refletir sobre a construção da informação. Pode parecer um assunto árido, mas é inegável a consequência dos noticiários no ânimo dos governos, dos mercados e na nossa percepção do dia a dia.

 

“Gosto de jornalismo. Só não fui jornalista porque optei pelo cinema”, diz Furtado. Artista com uma posição assumida de esquerda, ele conta que a ideia de fazer o filme surgiu com a percepção de que, atualmente, todos os grandes jornais são de oposição ao governo do PT. “Ao mesmo tempo, com o avanço da internet, o que era a imprensa alternativa dos anos 1970 passou a ser digital”, comenta.

 

O cineasta convidou alguns dos principais jornalistas para falarem sobre o tema e também sobre escolha de fontes, ética, publicidade oficial e desafios profissionais. Há entrevistas com profissionais como Bob Fernandes, Cristiana Lôbo, Geneton Moraes Neto, Janio de Freitas, José Roberto de Toledo, Luis Nassif e Renata lo Prete.

 

Entre um depoimento e outro, um grupo de atores encena a peça “O Mercado de Notícias”, escrita pelo inglês Ben Jonson em 1625. Contemporâneo de Shakespeare, o dramaturgo esbanja ironia com a possibilidade de fabricar uma informação que esteja ao gosto do freguês. Lançada apenas três anos depois da publicação do primeiro jornal inglês, a peça diverte e impressiona pela atualidade da discussão colocada em cenas pelos 14 atores.

 

Jorge Furtado ainda se lança na investigação jornalística mostrando episódios que colocaram em xeque a credibilidade da imprensa, como o caso que ele batizou de Picasso do INSS. Trata-se do poster de uma gravura que decora uma repartição pública em Brasília e que foi tratada como verdadeira pela Folha de São Paulo. “Descobri que esta reprodução foi entregue como pagamento de uma dívida, enquanto o original está no Metropolitan, de Nova York. Um jornalista não poderia ter cometido um erro de apuração destes”, critica.

 

CONFIRA UMA ENTREVISTA COM O CINEASTA:

O documentário “O Mercado de Notícias” continua no site, que oferece as entrevistas completas, a montagem da peça, as “barrigas” jornalísticas e o que o cineasta ainda vier a considerar interessante.

Quais critérios você usou para selecionar os jornalistas entrevistados?

Foi bem pessoal. Claro que o meu recorte é mais de esquerda, mas tentei ter um leque amplo de opiniões. Todos são jornalistas que eu leio e acompanho no dia a dia. Também convidei o Elio Gaspari, mas ele não dá entrevistas. E o Caco Barcellos confirmou, mas houve um problema de agenda.

 

Alguma possibilidade da peça ganhar algum palco?

Por mim, não (risos). Os atores gostariam, mas acho que eu não sobreviveria com eles todos os dias, não sou um cara de teatro. O texto está traduzido e disponível no site, se alguém quiser montar será ótimo.

 

Qual é a sua expectativa com o documentário?

Não espero uma corrida do público aos shoppings, mas espero que atraia as pessoas que, como eu, gostam de se informar, de saber o que está acontecendo. Quis fazer esta ponte entre a revolução que foi o surgimento da imprensa, por volta de 1500, e o advento da internet, nos anos 2000. Acho que será um bom filme para o debate, para levantar as questões básicas da imprensa. Mas o filme continua no site, é um projeto que nasceu conjunto.

 

Você acha que faltou alguma coisa no filme?

Procurei uma “barriga” (notícia errada) do governo FHC, mas não encontrei. Mas há muitas dos governos Lula e Dilma, o que já é uma prova deste viés oposicionista da grande imprensa.

 

Qual é a sua opinião sobre o futuro do jornalismo?

Acho que este é um momento de ouro do jornalismo, de valorização da profissão. Com esta confusão que virou a informação na internet, precisamos recorrer aos jornalistas que nos deem credibilidade.

 

E o “Beleza”, seu próximo longa?

Deve estrear no início do ano que vem. Vamos deixar passar Natal, Oscar, estas coisas.

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