Apuração de 86 teve notas vandalizadas e ameaça a maestro da Tropicália

Muito antes do episódio de 2012, Carnaval de São Paulo teve sua 1ª grande confusão

Já fazem parte do folclore do Carnaval de São Paulo as apurações marcadas por tumultos. Não por acaso, a leitura das notas atraem inclusive quem sequer já viu um desfile sequer na vida. Todos esperançosos por ver cenas como a de 2012, quando um integrante do Império de Casa de Verde invadiu o local da mesa da Liga SP e rasgou as notas. E aquela nem foi a primeira vez que tentaram melar um resultado com uma, digamos, intervenção violenta nas planilhas. Em 1986, tendo a velha rivalidade entre duas escolas como pano de fundo, as notas já tinham sido alvo da ira dos descontentes, motivando uma das mais longas apurações da história, com dois dias e três locais diferentes.

O enredo desse bafafá histórico envolve duas das maiores agremiações paulistanas, a Polícia Militar e até o maestro Júlio Medaglia, autoridade brasileira em matéria de música, autor do arranjo de "Tropicália" e responsável por montar o júri daquele ano.

Cheio de boas intenções, Medaglia reuniu mais nove personalidades do cenário artístico e intelectual de São Paulo - entre eles o ator Cacá Rosset, jurado de enredo, e o estilista Ronaldo Esper, que daria as notas de fantasia.

A ideia era mudar também a forma de julgamento. E o maestro, jurado de melodia, decidiu por um método ortodoxo, pelo menos para o universo samba. Ele daria nota 5 para a primeira escola, e a partir daí a usaria para balizar os demais julgamentos. Não deu certo.

O clima no ginásio do Pacaembu já era pesado quando o Camisa Verde de Branco recebeu um 9,2 em alegoria, dado pelo artista plástico Zélio Alves Pinto. No entanto, como o regulamento não previa notas fracionadas, instalou-se o primeiro impasse do dia: arredondar para 9 ou para 10?

Sem esperar por uma solução e enfurecido, o então  presidente do Camisa, Carlos Alberto Tobias, invadiu a área reservada da mesa apuradora e vandalizou a papelada com as notas. Dependendo da versão, Tuba, como era conhecido, teria apenas espalhado as folhas.

"Ele veio por trás da mesa, pegou os papéis e jogou todo para o alto", relembra Ricardo Campos, o Kaxitu, atualmente presidente da Fenasamba. 


MedagliaMaestro Júlio Medaglia tentou mudar a forma de julgamento do Carnaval. Foto: Jair Magri/Fundação Padre Anchieta

Segundo o diretor de Harmonia da Vai-Vai, o veterano Fernando Penteado, elas foram mesmo rasgadas. Seja qual for a versão verdadeira, o certo é que foi a senha para se formar um tumulto no Ginásio do Pacaembu. Tudo isso com o combustível da rivalidade entre as comunidades do Bixiga e da Barra Funda.

"Eu não queria saber de ganhar. Eu queria era ficar na frente do Camisa. Se eles ficassem em 10º e nós em 9º, a gente fazia festa", relembra, aos risos, Penteado, que admite: brigou muito naquela quinta-feira pós-Carnaval.

Decidiu-se então que as notas quebradas, se aparecessem, seriam arredondas para cima. A apuração foi reiniciada, quando a paz voltou a ser quebrada pela nota 5 de Medaglia para o Camisa em melodia. O tempo fechou de vez. Uma briga generalizada, com empurrões, palavrões, ameaças, tomou conta do local, precisando da intervenção enérgica dos policiais - com o reforço, 160 homens no total, pois os 80 agentes destacados para o Pacaembu não deram conta da fúria dos sambistas.

"Meu amigo e compadre estava descontente, mas faz parte da vida" pondera hoje Antônio Pereira da Silva Neto, o Zulu, na época diretor do Camisa e hoje responsável por ler as notas na apuração - inclusive a de 2012.

10 campeãs

Nas mais de três horas que a confusão durou, com a contribuição dos torcedores, surgiram as mais variadas para resolver o impasse. Chegou-se a cogitar uma divisão maluca do título entre as 10 escolas, ideia que não prosperou. Os defensores da solução esquisita alegavam que o sigilo das notas já havia sido quebrado. Segundo relatos, o julgadores revelaram os números em entrevistas.

Segundo reportagem da Folha de S. Paulo do dia seguinte, o presidente da Uesp (União das Escolas de Samba Paulistanas, entidade que organizava os desfiles na época, antes do nascimento da Liga), Eduardo de Oliveira, levou as urnas para o banheiro masculino do ginásio, para garantir que os papéis não sumissem no meio daquele quebra-pau. No fim, determinou que as notas fossem levadas para o 2º Batalhão de Choque da PM, no Centro. E os sambistas foram juntos - e de camburão, ainda que ninguém ficasse preso.

Chá da paz

No batalhão, um comandante com jeitão de diplomata passou a mediar o conflito e tentar a acalmar os ânimos. Segundo a desconfiança de Penteado, com a ajuda de um aditivo.

"Ele deu um chazinho para a gente. Não sei o que tinha na bebida, mas todo mundo dormiu ali mesmo, em um sofá do batalhão. Quando a gente acordou, estava tudo mais calmo, e ainda ouvimos uma brincadeira do comandante. 'Tá vendo? Vocês são brabos e dormiu um no ombro do outro'", lembra Penteado.

fernando penteado
Fernando Penteado, diretor de Harmonia da Vai-Vai. Foto: Reprodução

Os brigões foram mandados para casa, e as escolas foram convocadas por telegrama para a continuação da apuração no dia seguinte, na sede da Federação Paulista de Futebol. Dessa vez, sem torcida.

Com os ânimos acalmados e um forte reforço policial, a Uesp conseguiu encerrar a leitura das notas. E a Vai-Vai foi anunciada como campeã. O Camisa ficou com o vice-campeonato. Então, festa no Bixiga, certo? Nem tanto. "Já nem tinha clima para festejar muito", recorda-se Penteado.

"Se ganhou, teve méritos. Quem não consegui tem que ver o onde errou, voltar pra casa e fazer a coisa correta", pondera, hoje, Zulu.

Representantes de seis escolas, entre elas a Rosas de Ouro e o próprio Camisa, descontentes com a Uesp, se desligaram da entidade e anunciaram que criariam uma nova. No mesmo ano nasceu a Liga, e o resto é história.

"Queriam me matar"

Enquanto os dirigentes tentavam se entender, Medaglia era um dos principais alvos da ira dos sambistas, irritados com a nota 5 e o critério de julgamento.

"Imagina se eu dou 10 para a primeira escola que passa? Aí vem um samba melhor em seguida e não posso dar uma nota maior", defende-se Medaglia. E nem adiantava esperar todos os desfiles, já que envelopes eram lacrados e retirados pela polícia logo após a apresentação.

Na Folha de S. Paulo de 15 de fevereiro de 1986, a agonia do maestro Julio Medaglia
Na Folha de S. Paulo de 15 de fevereiro de 1986, a agonia do maestro Julio Medaglia. Foto: Reprodução

Os problemas de Medaglia, porém, não acabaram após a apuração - na verdade eles estavam apenas começando. O maestro relata que foi ameaçado e precisou de escolta policial 24 horas por dia.

"Fique duas semanas com a polícia na porta da minha. Queriam me matar", lembra Medaglia, que depois da traumatizante experiência nunca mais cogitou ser jurado em desfiles.

"Eles tratam as pessoas muito mal, e tem gente de alto nível que não se submete mais a essa humilhação. Você está lá para julgar, mas acaba sendo julgado", critica.

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