No Carnaval das multidões, tradição cede passagem e funk ganha as ruas

Novos ritmos ganham espaço na folia por todo o país

Até 1899, Carnaval não tinha trilha oficial. A primeira marchinha foi Ô Abre Alas!, de Chiquinha Gonzaga, que logo ganhou o gosto popular. Quase 120 anos depois, talvez a festa esteja mais popular do que nunca, só que as marchinhas e o samba definitivamente cederam lugar a outros ritmos - sobretudo o funk - na folia.

A nova passarela do samba paulistano, a Avenida 23 de Maio, na zona sul de São Paulo, é um termômetro. Conforme dados oficiais, 1,95 milhão de foliões foram para a via ontem e anteontem para pular ao som de hits dos anos 1980 a 2000 (do pop ao axé), além do sertanejo. O público total do Carnaval, segundo a Prefeitura, é de 8 milhões, ao se considerar os 326 blocos que já desfilaram pela capital desde o dia 3 - são 4,25 milhões desde sábado, dia 10.

Nessa segunda-feira, dia 13, houve quem fosse para a folia, mas não para curtir o Pinga Ni Mim. "Nem sei que bloco é esse. O que importa é essa bagunça aqui", disse o comerciante Rafael Oliveira, de 28 anos, com uma caixa de som instalada no canteiro central da 23 de Maio.

Aliás, bastava se afastar um pouco do trio elétrico para ouvir uma outra batida sendo reproduzida em várias caixas de som, como a de Oliveira, espalhadas outros pontos da avenida. Mais experiente no ramo, o analista de sistemas Thiago Juliani, de 33 anos, já dispunha de estrutura mais potente de "baile". 

Pagou R$ 500 em uma caixa de som de 300 watts e dominou o trecho sob o Viaduto Paraíso, onde centenas de pessoas se protegiam do sol de 33°C. "Peguei até uma bateria de moto e agora dá para ficar 6 horas tocando direto. Na semana passada estava na Vila Madalena e só parou de tocar porque roubaram meu iPhone. Tive de comprar outro celular", disse, feliz em promover a festa. "O pessoal gosta porque eu toco o que eles pedem." E o que eles pedem? "Sempre funk."

O fenômeno também é notado por quem se manteve fiel aos grupos tradicionais, como o Esfarrapado, mais antigo bloco de São Paulo que fez ontem no Bexiga, região central, seu 72.º desfile. "Acho que perdeu o glamour. Na Vila Madalena ontem só tocaram algumas músicas de carnaval. Depois foi funk, Pabllo Vittar e Anitta."

O Vai, Malandra de Anitta está no top 3 do serviço de música digital Spotify. Pelo terceiro ano consecutivo, o funk deve emplacar o ritmo do carnaval. Mas vale notar o quanto as redes sociais é que hoje ajudam a ditar rapidamente o ritmo dos blocos. Ao lado de Anitta, surgem Jojo Todynho, do viral Que Tiro foi Esse?, e MC Loma, com o vídeo Envolvimento

E quem é MC Loma? Uma menina de 15 anos, de Jaboatão dos Guararapes (PE) que postou um vídeo no YouTube em 20 de janeiro e logo ganhou a internet. Nas ruas, seu nome já é ouvido ao lado das gêmeas Lacração, Mirella e Marielly Santos. Mas quem foi que deu espaço a essas meninas no Carnaval? Em Olinda, elas dançaram Envolvimento, enquanto a música era cantada por Anitta. Lembrando que ela e seu Bloco das Poderosas também fizeram ferver o Carnaval de Salvador, com Pabllo Vittar e Jojo - contando com a folga momesca de Ivete Sangalo, após o nascimento das filhas no sábado de Carnaval.

E nem as ladeiras de Olinda se mantêm totalmente fiéis à tradição. Na Praça João Alfredo, diante da Igreja de São Pedro, circulam dezenas de blocos e troças adeptas do frevo. Mas bem ao lado, na Ladeira do Bonfim, o cenário é bem diferente. Um verdadeiro paredão de caixas de som - estrategicamente colocadas na frente das casas centenárias que servem de hospedarias coletivas durante a festa - reproduzem o que há de novidade no universo funk. 

Pela primeira vez, até blocos saíram às ruas nesse ritmo. A mineira Flávia Soares, de 23 anos, aprovou a "inovação". "Já havia passado dois carnavais em Olinda, mas agora gostei demais."

Rio de Janeiro

Mas se o funk das cariocas Jojo e Anitta virou produto "exportação" para o restante do País, em sua terra natal não se vê nada muito diferente. No sábado, o centenário Cordão da Bola Preta, com suas marchinhas e sambas, foi escolhido por 340 mil foliões. No mesmo dia, o Bloco da Favorita, que desfilou pelo sexto ano consecutivo, atraiu para a orla de Copacabana, zona sul, 690 mil pessoas, ao som de sucessos funkeiros.

Para o compositor de samba João Pimentel, a mudança no gosto do público é natural. Ele data o processo de dez anos, quando surgiram blocos como Sargento Pimenta, em homenagem aos Beatles; Fogo e Paixão, de música brega; Toca Rauuul, que homenageia Raul Seixas; e o próprio Bloco da Favorita.

"No começo houve polêmica porque os blocos antigos e mais tradicionais foram engolidos pelos mais novos, principalmente na zona sul. Mas os jovens não são tão ligados ao carnaval tradicional e buscam seguir ritmos que gostam mais", avalia Pimentel. "Como mais gente fica na cidade no carnaval, esses blocos ganharam ainda mais impulso. É um caminho inevitável."

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