Contra polêmica, Igreja se aproxima do Carnaval

Estácio, com enredo sobre São Jorge, recebeu atenção especial de arquidiocese

A imagem é famosa: um Cristo Redentor totalmente coberto por um plástico preto, cercado de mendigos e uma faixa com os dizeres: “mesmo proibido, olhai por nós”. A Beija-Flor de Joãosinho Trinta pretendia mostrar um Cristo mendigo na Maquês de Sapucaí, mas a Arquidiocese do Rio de Janeiro, ao tomar conhecimento da obra, foi à Justiça para impedir a apresentação da escultura – e conseguiu. O ano era 1989, e a relação entre a Igreja e o Carnaval no Rio de Janeiro mudou muito desde então.

Os tempos agora são de tolerância e diálogo, para evitar que cenas como aquelas se repitam. O exemplo mais recente é a Estácio de Sá. A campeã da Série A (acesso) em 2015 volta ao Grupo Especial com o enredo sobre São Jorge. Precavido, o carnavalesco Chico Spinosa tomou a iniciativa, junto do presidente Leziário Nascimento, de levar a ideia ao cardeal arcebispo dom Orani Tempesta.

“Conversamos com dom Orani, explicamos o enredo, mostramos a sinopse e o Chico deu uma aula de São Jorge”, conta Nascimento, cuja escola recebeu a bênção do padre Wagner Toledo.

Desde então, outros encontros aconteceram. A derradeira visita de membros da Cúria ao barracão aconteceu na última sexta-feira, pouco mais de uma semana antes do desfile. E segundo as partes envolvidas, está tudo aprovado, “de acordo com as orientações da Arquidiocese”, disse a coordenadora jurídica da entidade, Claudine Dutra.

As orientações, no caso, foram duas principais: as imagens do santo deveriam estar estilizadas e nada de nudez. Sincretizações não foram vetadas. Portanto, nenhum problema com Ogum.

Além disso, o local onde São Jorge apareceria também foi motivo de preocupação, cessada após a notícia de que a imagem virá num carro, cercada pela Velha Guarda estaciana. “Acho que (a imagem) está bem protegida”, afirmou Claudine.

Cartaz do enredo sobre São Jorge da Estácio de Sá: no desfile, nada de nudez

Cartaz do enredo sobre São Jorge da Estácio de Sá: no desfile, nada de nudez - Foto: Reprodução


O samba, que fala em “manto carregado de axé”, também recebeu atenção e passou pelo crivo da arquidiocese.

“Alinhamos tudo antecipadamente, por isso não houve problema”, afirma a advogada, que visitou outras escolas – todas aprovadas pelo olhar da Cúria.

Santa na delegacia

Por parte da escola, a cautela é justificada. Principalmente para Spinosa, que já foi parar na delegacia por causa de problemas com o clero carioca.

Em 2000, o então carnavalesco da Unidos da Tijuca criou um carro alegórico em que uma imagem de Nossa Senhora dos Navegantes “protegia” o navio de Pedro Álvares Cabral. A arquidiocese, que tinha Dom Eugênio Sales como arcebispo, não gostou nada da ideia e tirou a santa da alegoria. “Acabei preso, e a santa também”, exalta-se Spinosa ao relembrar o episódio.

“Na véspera do Carnaval, a Cúria entrou no barracão com a polícia, serraram minha imagem a levaram. Acabei na delegacia da Central do Brasil, onde fiquei detido por duas horas até chegarem meus advogados. Fui acusado de vilipêndio (desrespeito público a objeto de culto religioso)!”, conta o carnavalesco.

“A Igreja é nossa parceira”

As brigas entre as autoridades católicas e os sambistas, diz Claudine, se tornaram raras. Segundo ela, além do acompanhamento de perto da Cúria, os profissionais do Carnaval ficaram mais precavidos. “Hoje os carnavalescos tomam um cuidado grande com símbolos religioso”, diz. As disputas na Justiça, porém, como o caso da Beija-Flor, não estão totalmente descartadas.

Dom Orani Tempesta, arcebispo do Rio, em visita a comunidade carioca
Dom Orani Tempesta, arcebispo do Rio, em visita a comunidade carioca - Foto: Daniel Marenco-Folhapress


“No passado a gente tomava algumas medidas judiciais quando não tinha diálogo, quando não tínhamos acesso à informação ou não sabíamos o contexto. Mas o relacionamento é muito mais amigável. Se há uma discrepância, a gente pede e os ajustes são feitos”, relata Claudine.

“Quando optei pelo enredo, levei a ideia para saber até onde ele iam topar”, diz Spinosa, que elogia a postura do atual arcebispo: “ele tem uma visão progressista e moderna sobre a Igreja, como o próprio papa Francisco”. “A Igreja é nossa parceira”, completa.

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