Tévez e a nossa schadenfreude

Por Antonio Campos (*)

 

O vídeo em que o argentino Carlos Tévez aparece trabalhando como gari em Manchester teve mais de 20 mil acessos no site do Bandsports. Um recorde.

 

A justiça inglesa determinou que o atacante do Manchester City cumprisse 250 horas de trabalho comunitário como gari. A pena foi imposta porque Tévez foi pego dirigindo sem habilitação em março. Ele ainda teve que pagar cerca de R$ 3,5 mil e foi proibido de conduzir veículo por 6 meses.

 

A primeira tarefa do argentino foi limpar um container.  E essa imagem correu o mundo (e você pode revê-la no vídeo abaixo).

 

Agora, a questão:  por que gostamos tanto de ver o outro se meter em confusão ou passar por uma situação constrangedora?

 

Fui pesquisar sobre isso e descobri que essa sensação de quase prazer de ver alguém se dar mal chama-se ‘schadenfreude’. Uma palavrinha impronunciável em alemão que significa sentir-se feliz com a desgraça dos outros.

 

- Schadenfreude é uma palavra derivada do alemão, Schaden (dano) e Freude (alegria), utilizada para designar o prazer obtido dos problemas dos outros. É a palavra que dá significado ao sentimento descrito no dito popular "pimenta nos olhos dos outros é refresco", explica a psiquiatra Vanessa Marsden.

 

Mas este comportamento  não  retrata só um ligeiro lado masoquista de nossa parte. Significaria ainda um sintoma de nossa baixa autoestima. Explico.

 

Na Holanda, a Universidade de Leiden avaliou 70 estudantes nesta questão do ‘schadenfreude’.  Curiosamente, aqueles que curtiam o fracasso de outros estavam longe de serem pessoas com alta estima.

 

Claro que você pode ter este sentimento também quando alguém que torna sua vida miserável se dá mal. Sabiamente, os psicólogos chamam isso não de revanche, mas de autoafirmação de quem se sentia ameaçado.

 

Seja como for, o fato é que a humanidade convive com esse sentimento desde tempos imemoriais:

 

- Desde os tempos bíblicos há menções de uma emoção semelhante na descrição ao schadenfreude: "Quando cair o teu inimigo, não te alegres, nem se regozije o teu coração quando ele tropeçar; Para que, vendo-o o Senhor, seja isso mau aos seus olhos, e desvie dele a sua ira" (Provérbios 24:17-18). Na Grécia clássica, Aristóteles usou o termo epikhairekakia na obra Ética a Nicômaco, que quer dizer "alguém que sente prazer com o infortúnio de outro’, comenta a psiquiatra.

 

No entanto, este sentimento é levado ao máximo em nosso ambiente de trabalho.  O professor de filosofia na Universidade de Haifa, Aaron Ben-Ze'ev, conta que as pessoas que mais invejamos e esperamos que elas se estrepem estão ao nosso lado no escritório.

 

- Você inveja mais um colega que ganha mil dólares a mais por ano do que um presidente de empresa, que ganha milhões de dólares a mais. Também invejamos mais pessoas famosas, elas são símbolos para nós, analisa Aaron.

 

Um lado positivo desses pensamentos negativos no ambiente corporativo, se é que podemos ver um lucro nisso, é que nos mexemos com base no que as pessoas ao nosso redor têm ou fazem.  Segundo as teorias psicológicas de Comparação Social, quando os “colegas” à nossa volta sofrem perdas, isso faz com que nosso desempenho melhore.

 

O filósofo Friedrich Nietzsche já alertava para os perigos desta satisfação interna de ver o outro entrar pelo cano.  Isso representaria para o alemão apenas a intensificação de nossos sentimentos de inferioridade. Por isso, antes de sentir schadenfreude, pare, respire, processe  internamente e mude de pensamento.

 

Mas, se quiser ver o vídeo do Tévez como gari, a imagem está aí embaixo. Vai resistir? Um bom exercício para começar, não?

 

 

 

 

 

 

 

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