Carnaval já teve robauto e Molejo como enredos

Relembre alguns dos mais inusitados temas apresentados nos desfiles das escolas de samba cariocas

Em São Paulo, o mundo do samba se dividiu entre os críticos e os entusiastas do enredo sobre os animais de estimação da Águia de Ouro. Mas perto dos pets e da Luísa Mel fantasiada de poodle, o Rio de Janeiro já viu apresentações com temas bem mais inusitados – para não dizer bizarros –, como uma feira de produtos roubados, camisinhas e grupos de pagode. Preparamos uma lista com alguns deles.

Unidos da Ponte 1990 – Robauto, Uma Ova
Para tentar voltar ao Grupo Especial, a Unidos da Ponte levou para a Sapucaí o enredo sobre a polêmica e folclórica feira de produtos de procedência duvidosa – ou simplesmente fruto de roubo. E como o nome "robauto" diz, o forte eram as peças de automóveis. O carro abre-alas trazia a escultura de um gato preto. O desfile foi assinado pelo carnavalesco Alexandre Louzada, bem antes dos vários títulos que venceria, atualmente na Mocidade. A letra do divertido samba, defendido pela lenda insulana Aroldo Melodia, dizia: “Você aqui vai encontrar/Tudo que imaginar/Rádio que não funciona/Geladeira que não gela/Gravadores que não gravam”. A Ponte ficou em terceiro e não subiu.

Império da Tijuca 1999 - No palco da alegria, Molejão é rei nesta folia
No auge do pagode, a escola do Morro da Formiga fez um desfile que tinha como figura principal o grupo Molejo, dos sucessos “Caçamba” e “Dança da Vassoura”. Mas o enredo vinha embalado em uma mensagem de um mundo melhor, numa conexão cheia das melhores intenções entre a turma de Anderson Leonardo e a paz universal. O ex-jogador Júnior e o ator Eri Jonhson, vestidos de Flamengo e Vasco, respectivamente, dividiram um carro com a então rainha das embaixadas, Milene Domingues. Os integrantes do Molejo vieram no quinto carro, fazendo coreografias das músicas do grupo. Entre eles Andrezinho, filho do mitológico Mestre André, da Mocidade, inventor da paradinha da bateria. Um desfile trash, que valeu o antepenúltimo lugar e quase um rebaixamento para a 3ª divisão do Carnaval.


Porto da Pedra 2012 - Da seiva materna ao equilíbrio da vida

Depois de flertar vários anos com as últimas colocações, o rebaixamento da Porto da Pedra para o Acesso finalmente aconteceu no ano em que levou para a avenida um enredo, patrocinado, sobre o iogurte, ou o leite... Uma confusão que a apresentação só aumentou. Foi uma queda anunciada, pedra cantada desde o anúncio do enredo. Há quem diga que o desfile não foi ruim a ponto de valer o penúltimo lugar.

Beija-Flor 1973, 1974 e 1975 - Educação para o desenvolvimento, Brasil Ano 2000 e O Grande Decênio
Houve uma época, no auge da ditadura militar, que o regime se infiltrou nos desfile e virou tema das apresentações. E em três anos seguidos, entre 1973 e 1975, a Beija-Flor, pouco antes de se tornar uma potência do Carnaval, exaltou os feitos dos militares no poder. Os enredos chapa-branca renderam sambas esquisitos, alguns cm trechos bizarros, como “Lembrando PIS e PASEP/E também o FUNRURAL/Que ampara o homem do campo/Com segurança total”. No ano seguinte, a Beija-Flor tirou Joãosinho Trinta do Salgueiro após um bicampeonato. Em 1976, o primeiro título da escola de Nilópolis. E o resto é história...

Grande Rio 2004 – “Vamos vestir a camisinha, meu amor”
Mesmo os gênios como Joãosinho Trinta têm momentos de pouca inspiração. Foi o caso da Grande Rio de 2004. O enredo sobre a camisinha (e outros métodos de prevenção de doenças sexualmente transmissíveis) foi um dos piores da história do carnavalesco, muito criticado por uma suposta apelação nas fantasias e alegorias, algumas censuradas. A escola de Duque de Caxias não passou de um frustrante 10º lugar.

Império da Tijuca 1984 – 9215
Quando a ditadura e a censura saíam do Brasil, o Império da Tijuca fez uma defesa aberta pela legalização dos jogos de apostas, incluindo, é claro, o jogo do bicho. No recém-inaugurado Sambódromo da Marquês de Sapucaí, a escola cantou um samba que, de certa forma, mandava um recado para os mais moralistas: “Corrida de cavalo pode apostar/Lotos e loterias/ Existem em todo lugar/O palpite é borboleta/No bicho eu vou jogar”. O número do título do enredo era o mesmo da lei que proibia os cassinos.

Mangueira 1989 – Trinca de Reis
A tentativa da Mangueira de homenagear Chico Recarey, dono do Scala (famosa casa de shows do Leblon), e de outros dois reis da noite: Carlos Machado e Walter Pinto. Deu quase tudo errado. Ainda que fosse ao passado para falar dos dois últimos, a figura central do enredo era Recarey, espanhol que fez dinheiro no Rio com suas casas noturnas. O samba é especialmente lembrado como um símbolo daquele Carnaval mangueirense: “Vou de Scala/Vou ao show no Asa Branca/ Neste Rio que eu amo/A noite é uma criança”.

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